Essa pergunta é bastante frequente no consultório e até mesmo nas conversas entre amigas. Mas será mesmo possível evitar o câncer de mama? Trago neste texto algumas informações relevantes e atualizadas sobre esta questão.
Porque o câncer ocorre?
Já falamos um pouco neste texto sobre o câncer de mama e, como todos os tumores tem alterações genéticas. Conforme os anos se passam, as nossas células se dividem para sempre renovarem os tecidos. Nestas divisões que ocorrem ao longo do tempo, algumas mutações podem ser inseridas no DNA totalmente ao acaso. De fato, alguns fatores, tais como a exposição a radiação, agentes químicos, vírus, entre outros, propiciam que mutações ocorram no DNA. Porém, temos diversos mecanismos que tentam evitar estas alterações na sequencia do DNA, são os mecanismos de reparo do DNA. Eventualmente, estes mecanismos falham e uma mutação perpetua nas células filhas, dando início ao processo de carcinogênese.
Quais são os principais fatores de risco para o câncer de mama?
- História familiar
- Estilo de vida
- Fatores demográficos
- História reprodutiva
- Idade
- Lesões prévias na mama
Estes dados mostram que o câncer de mama, assim como outros tumores tem causas multifatoriais e não há um único fator como grande responsável pelo tumor.
Avaliando a história familiar e o risco de câncer de mama
Conhecer a história de doenças de uma família é bastante relevante, não só para câncer de mama mas, para outros tumores e doenças. Essa informação é fundamental para a consulta com um geneticista.
Saber quais parentes tiveram câncer, qual tipo de tumor e a idade em que ocorreu são os primeiros dados que ajudam o geneticista a construir um raciocínio sobre quais mulheres precisam de avaliação adicional para síndromes de predisposição a câncer e quais não precisam.
Um dado que muitas mulheres trazem na consulta é que alguma outra mulher da família teve um nódulo. Embora isso possa ser relevante, é preciso saber qual o tipo de nódulo foi encontrado, ou seja, precisamos de dados de biópsia para saber se isso é mesmo importante para a avaliação de risco ou não. Lesões benignas, tais como hiperplasia ductal atípica, hiperplasia lobular atípica e carcinoma lobular in situ aumentam o risco de câncer de mama. Porém, na maioria dos casos, o nódulo não estará relacionado a estas lesões e sim a fibroadenomas.
Lesões prévias na mama
Mulheres que já tiveram lesões na mama que necessitaram de biópsia para a investigação tem um risco aumentado para o desenvolvimento de tumor maligno de mama. Estudos mostram que mulheres com carcinoma lobular in situ tem risco de até 20% de desenvolverem câncer nos 20 anos subsequentes.
História reprodutiva
Mulheres que nunca tiveram filhos tem risco maior do que as que já tiveram para o surgimento de tumor. Da mesma forma, as que tiveram o primeiro filho mais tardiamente também tem risco aumentado quando comparado às que tiveram filhos mais cedo.
A menarca precoce e a menopausa tardia são outros fatores que influenciam o risco de forma negativa.
Obesidade e risco de câncer de mama
O índice de massa corporal (IMC) é uma proporção do peso em relação à estatura. O cálculo do IMC segue a fórmula peso(kg)/altura(m)². É considerado a faixa de normalidade entre 18,6 e 24,9. O sobrepeso é entre 25 e 29,9 e, IMC acima de 30 é considerado obesidade.
Estudos mostram que a cada 5 pontos de IMC acima da normalidade, o risco de câncer de mama aumenta em 1,2 vezes. Isso significa que, se o IMC de uma mulher é 29 e o risco de câncer naquela população está em torno de 10%, o risco dela será de 12% e, se esta mulher tem IMC de 34, o risco dela passa para quase 15%. No entanto, este cálculo também precisa levar em consideração o risco de população estratificado pela idade.
O exercício físico é um fator protetor!
A prática de exercício físico de forma vigorosa, por pelo menos 5 horas por semana é capaz de reduzir o risco de câncer de mama. Considerando esta mesma população em que o risco de câncer de mama é 10%, a prática de 5 horas semanais de exercício é capaz de reduzir este risco para 6,2%.
Por isso, manter o peso dentro do adequado e praticar exercícios físicos semanalmente são atitudes benéficas para a redução do risco de câncer de mama.
Terapia de reposição hormonal
Alguns estudos com terapia de reposição hormonal mostram que dependendo da formulação usada, o risco para câncer de mama aumenta, sendo proporcional ao tempo de uso de medicação. Por isso, é importante sempre conversar com o médico ginecologista e entender qual a melhor formulação em cada caso.
Ingestão de álcool também aumenta o risco de câncer de mama
Diversos estudos mostram que o consumo de álcool aumenta o risco de câncer de mama. A cada 10 gramas ingeridas em média, por dia, o risco aumenta 5%. Isso serve tanto para mulheres com consumo diário ou quase diário e as que consomem somente nos finais de semana.
O Ministério da Saúde disponibilidade uma calculadora para sabermos quantas unidades de álcool consumimos, lembrando que uma unidade de álcool equivale a aproximadamente 8g de álcool. Um drink contem aproximadamente 14g de álcool.
Como a dieta influencia o meu risco de câncer
Estudos mostram que o risco de câncer reduz em pessoas que tem uma dieta rica em vegetais e frutas. Mais do que um alimento específico, é importante saber que o consumo de alimentos ultraprocessados aumentam o risco de câncer em geral, em especial o risco de câncer de mama.
Os alimentos ultraprocessados são aqueles que passaram por diversos processos industriais e contem uma série de ingredientes no rótulo. O guia alimentar para a população brasileira contem informações sobre estes alimentos.
Por isso não se culpe por ingerir um alimento específico, pense em construir uma alimentação equilibrada e baseada em alimentos in natura.
A mágoa pode causar câncer?
Essa é uma pergunta que eventualmente surge nas consultas. As histórias de vida das pessoas são sempre carregadas de momentos felizes e momentos tristes. Isso é próprio da vida e do ser humano. Não existe nenhum estudo que associe a mágoa ou tristezas ao surgimento de câncer.
É natural queremos explicar o surgimento do câncer a algum fator mais palpável, ou seja, a algo que aconteceu nas nossas vidas. No entanto, é importante lembrar que não existem culpados para o surgimento de um tumor. O câncer é uma doença multifatorial e não há um único fator que seja o grande responsável pelo adoecimento. O importante é manter a esperança e seguir o tratamento recomendado!
Referências
National Comprehensive Cancer Network. NCCN Guidelines. Breast Cancer Risk Reduction. 2025.
Isaksen IJ, Dankel SN. Ultra-processed food consumption and cancer risk: A systematic review and meta-analysis. Clin Nutr 2023; 42(6): 919-928.
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