Talvez você já tenha se deparado com a pergunta – “gostaria de avaliar os achados secundários no exoma?” e ficou na dúvida, afinal, o que são os achados secundários…
O que são achados secundários?
Os achados secundários, ou algumas vezes chamados de achados incidentais, são um grupo de genes que podem ser avaliados ou não a partir de um exame de genoma ou de exoma. São secundários pois, não tem nenhuma relação com os genes que precisam ser avaliados de acordo com o motivo pelo qual o exame em questão está sendo realizado.
Como os exames de sequenciamento de exoma e de sequenciamento de genoma recuperam informações de todos os genes de uma determinada pessoa, é possível incluir na análise e interpretação destes dados a avaliação de um grupo de genes que não tem relação com a indicação clínica.
Como isso é definido?
O American College of Medical Genetics (ACMG) faz uma curadoria dos genes e das doenças e recomenda a sua inclusão ou não na lista de genes secundários. A primeira publicação foi realizada em 2013 e, desde então, a lista é atualizada periodicamente. Além disso, outras sociedades de especialistas em genética médica e genética humana ao redor do mundo costumam endossar a publicação do ACMG e os laboratórios comerciais seguem estas recomendações quando fazem a análise dos exames.
Utilidade clínica do achado incidental
Os genes incluídos nesta avaliação são aqueles para os quais existem benefícios e riscos já conhecidos e com evidência científica apropriada. Além disso, são reportadas apenas as alterações conhecidas e classificadas como variantes patogênicas ou provavelmente patogênicas.
Esta investigação também possui limites técnicos
Algumas áreas do genoma não são muito bem analisadas pelas tecnologias disponíveis atualmente. Isso ocorre por dificuldades com regiões da sequencia de DNA que podem ser muito parecidas com outras ou pelo tipo de base nitrogenada que se concentra em um determinado segmento. Quando realizamos o sequenciamento com finalidade clínica, os laboratórios costumam adicionar outras técnicas moleculares para ultrapassar algumas destas barreiras. No entanto, para os achados incidentais, estes limites se manterão.
As preferências individuais do paciente para cada doença não podem ser consideradas
Isso significa que uma vez concordando em ter acesso aos dados dos achados incidentais não é possível selecionar apenas aqueles que interessam para a pessoa.
Por exemplo, caso a pessoa deseje informações apenas sobre as doenças cardiovasculares hereditárias incluídas na análise, sem saber sobre as síndromes de predisposição a câncer, não será possível. Ou seja, é uma análise do tipo tudo ou nada, ou temos acesso a todos os genes da lista ou a nenhum deles.
Avaliação de achados incidentais em crianças
Muitas vezes os exames de sequenciamento de genoma e sequenciamento de exoma são feitos para a investigação de atraso do desenvolvimento, malformações congênitas ou transtorno do espectro do autismo e, por isso, são realizados em crianças ou adolescentes. Neste cenário, este tipo de análise pode trazer complicações adicionais. Muitas das doenças investigadas terão manifestações apenas na vida adulta.
Outro ponto importante a ser considerado é que a decisão de incluir esta investigação na infância terá um impacto imediato maior para os pais da criança e não para a criança em si. Além disso, questões éticas acabam sendo envolvidas, pois se o exame revelar a presença de uma doença genética adicional (além da que está sendo investigada) este diagnóstico ocorre antes de sintomas (na fase pré-sintomática) para a criança. Isso significa que a criança, ao chegar na vida adulta, não poderá optar por não saber desta informação genética.
Quais são as doenças investigadas dentre os achados incidentais?
Síndromes de predisposição a câncer
- Polipose Adenomatosa Familiar
- Síndrome de polipose juvenil
- Síndrome de predisposição a câncer de mama e ovário hereditários
- Síndrome de Lynch
- Neoplasia endócrina múltipla
- Síndrome de paraganglioma-feocromocitoma hereditário
- Síndrome relacionada ao MUTYH
- Neurofibromatose tipo 2
- Síndrome relacionada ao PTEN
- Retinoblastoma hereditário
- Síndrome de polipose juvenil
- Síndrome de Peutz-Jeghers
- Síndrome de Li-Fraumeni
- Esclerose tuberosa
- síndrome de von Hippel-Lindau
- Tumor de Wilms hereditário
Doenças cardiovasculares
- Aneurisma de aorta torácico familial
- Cardiomiopatia hipertrófica hereditária
- Cardiomiopatia dilatada hereditária
- Hipercolesterolemia familial
- Miopatia miofibrilar
- Síndrome do QT longo
- Taquicardia polimórfica ventricular catecolaminérgica
- síndrome de Ehlers-Danlos forma vascular
- Cardiomiopatia arritmogênica de ventrículo direito
- Síndrome de Marfan
- Síndrome de Brugada
- Síndrome de Loeys-Dietz
Doenças metabólicas
- Doença de Fabry
- Deficiência de biotinidase
- Doença de Pompe
- Deficiência de ornitina transcarbamilase
Outros problemas clínicos
- Telangiectasia hemorrágica hereditária
- Doença de Wilson
- Hipertermia maligna
- Hemocromatose hereditária
- Diabetes da maturidade de início precoce (MODY)
- Retinose pigmentar relacionada ao RPE65
- Polineuropatia amiloidótica familiar
É muito importante que tais exames seja discutidos com médico geneticista antes de sua realização. Essa avaliação se chama aconselhamento genético e com a informação adequada, o paciente e seus familiares poderão decidir de forma mais segura e embasada sobre a investigação genética.
Referências
Green RC, Berg JS, Grody WW, Watson MS, Williams MS, Biesecker LG. ACMG recommendations for reporting of incidental findings in clinical exome and genome sequencing. Genet Med. 2013; 15(7):565-574.
Miller DT, Lee K, Abul-Husn NS, Amendola LM, Brothers K, Chung WK et al. ACMG SF v3.2 list for reporting of secondary findings in clinical exome and genome sequencing: A policy statement of the American College of Medical Genetics and Genomics (ACMG). Genet Med. 2023; 25(8):100866.
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